Por que o mercado começou a reavaliar empresas de software na era da IA?

A IA começou a redistribuir valor na tecnologia

Nas primeiras semanas de 2026, o chamado “SaaSpocalypse” colocou uma pressão incomum sobre algumas das maiores empresas globais de software. Segundo levantamentos de mercado, o índice S&P 500 de Software e Serviços perdeu quase US$ 1 trilhão em valor de mercado nas seis primeiras semanas do ano. Em apenas dois dias, 3 e 4 de fevereiro, o Nasdaq 100 viu quase US$ 300 bilhões desaparecerem de ações de software ligadas ao setor, incluindo nomes como Salesforce, ServiceNow, Adobe, Workday e Intuit.

O dado mais relevante, porém, não está apenas na correção. Está no que ela sinaliza. O mercado de software passou a questionar quais empresas realmente conseguirão sustentar valor em um cenário onde a inteligência artificial altera custos, modelos de negócio, formas de monetização e velocidade competitiva.

Esse movimento também não atingiu todas as camadas da tecnologia da mesma forma. Enquanto empresas de software passaram por forte pressão, infraestrutura e semicondutores seguiram em direção oposta. O ETF iShares Expanded Tech-Software recuou em 2026, enquanto um ETF de semicondutores avançou mais de 40% no mesmo período, sugerindo que o capital não saiu de tecnologia, mas começou a migrar para onde enxerga captura mais direta de valor no ciclo da IA.

A questão central não é se o SaaS perdeu relevância. O ponto é que a IA começou a mudar onde o valor é capturado. Durante anos, muitas empresas SaaS foram avaliadas com base em crescimento recorrente, expansão da base de clientes e aumento de receita por usuário. Agora, parte do mercado começa a perguntar se esses fundamentos continuam tão fortes quando a IA no SaaS reduz barreiras de entrada, acelera desenvolvimento e cria alternativas mais baratas para resolver problemas que antes dependiam de grandes plataformas.

A cloud reduziu o custo de escalar. A IA reduz o custo de construir

A computação em nuvem foi uma das grandes responsáveis por mudar a dinâmica competitiva da tecnologia nas últimas décadas. Antes dela, criar uma empresa de software exigia investimento pesado em servidores, ambientes próprios, infraestrutura e capacidade técnica inicial. Com a cloud, startups puderam prototipar, testar e escalar com menor investimento de entrada, pagando conforme uso e crescimento.

A IA generativa começa a provocar um efeito semelhante em outra camada. Ela acelera desenvolvimento, prototipação, automação e lançamento de novas funcionalidades. Times menores conseguem testar hipóteses mais rápido, operar com estruturas mais leves e explorar nichos antes pouco atrativos para grandes players.

Isso não elimina a força das empresas consolidadas, mas reduz parte da vantagem histórica baseada apenas em escala, capital e tamanho de equipe. Em mercados onde competir ficou mais barato, a pressão tende a aumentar.

Essa mudança também afeta o software corporativo. Grandes organizações ainda dependem de sistemas complexos, integrações críticas e fornecedores estabelecidos. Mas, quando áreas internas começam a ter acesso a ferramentas de automação empresarial mais avançadas, a relação com fornecedores muda. O cliente passa a comparar não apenas funcionalidades, mas velocidade, custo de adaptação e capacidade de resolver problemas específicos.

Em outras palavras, a IA no SaaS não torna o software irrelevante. Ela torna a diferenciação mais exigente. Não basta ter uma interface conveniente ou um fluxo de trabalho organizado. É preciso demonstrar por que aquela solução permanece essencial quando construir, integrar e automatizar ficou mais acessível.

A pergunta do mercado mudou: a receita é defensável?

A queda recente de empresas como SAP, ServiceNow, Workday, Intuit, Salesforce e Adobe não deve ser lida apenas como reação a resultados trimestrais. Em vários casos, o mercado parece antecipar uma discussão mais profunda sobre a resiliência futura dessas receitas.

Toda empresa de produto passa a encarar a mesma pergunta: o que me protege quando construir isso ficar mais fácil?

O caso da ServiceNow ajuda a ilustrar essa mudança. Mesmo com crescimento de receita e revisão positiva de outlook, suas ações sofreram forte queda em meio a preocupações com atrasos em grandes contratos e, principalmente, com o risco de disrupção por IA em plataformas tradicionais de software. A própria empresa destacou que mais de 50% dos novos negócios já vêm de modelos baseados em uso, e não apenas em licenças por usuário, mostrando que a monetização também começa a mudar.

Muitos softwares cresceram em torno de conveniência, workflow e cobrança recorrente por assento. Se agentes de IA passam a executar parte das tarefas antes feitas por usuários humanos, a base econômica de algumas categorias pode ser revista. Workday, Intuit, Asana e outros modelos ligados a camadas transacionais entram nessa discussão porque operam processos repetitivos e administrativos, mais suscetíveis à automação.

A questão não é se todo SaaS será substituído. A questão é quais receitas continuam defensáveis quando surgem alternativas internas, automatizadas ou mais baratas.

APIs, módulos e ferramentas isoladas entram em revisão

Outro efeito relevante aparece no consumo corporativo de APIs, módulos e soluções SaaS pontuais. Com IA, empresas que gastam valores altos em determinados componentes podem começar a avaliar se parte desses serviços ainda precisa ser comprada externamente ou se pode ser internalizada com custo menor.

Isso não significa que todo cliente vai virar empresa de software. O que muda é o poder de negociação. Quando alternativas internas passam a ser viáveis, fornecedores de componentes simples ou pouco diferenciados tendem a perder proteção comercial.

Esse movimento pode afetar principalmente produtos que funcionam como camadas isoladas dentro da operação. Ferramentas muito específicas, módulos com baixa integração estratégica ou APIs corporativas vendidas como componentes padronizados podem enfrentar mais pressão. Se a empresa cliente percebe que consegue reproduzir parte daquela função com agentes de IA, automações internas ou modelos customizados, o fornecedor perde parte da sua vantagem.

Esse é um dos motivos pelos quais o mercado pode revisar projeções de crescimento. Se uma empresa dependia de expansão contínua baseada em mais usuários, mais módulos ou mais consumo de API, a IA introduz novas formas de compressão dessa demanda.

A precificação por uso pode ser uma resposta, mas não resolve tudo sozinha. Ela faz sentido quando o uso está claramente ligado ao valor percebido pelo cliente. Se a cobrança cresce sem entregar eficiência, resultado ou redução de complexidade, o modelo também pode gerar resistência.

Clientes não querem mais ferramentas. Querem operação resolvida

Se por um lado a IA amplia a oferta de soluções, por outro ela também aumenta a complexidade de decisão para quem compra tecnologia.

Grandes organizações não operam em laboratório. Elas lidam com sistemas legados, regras regulatórias, processos críticos, dados distribuídos e riscos que impactam receita, custo e reputação. Nesse contexto, adotar uma ferramenta nova raramente resolve o problema completo.

Essa é a diferença entre automatizar uma tarefa isolada e transformar um processo de negócio inteiro. O segundo exige integração, governança, confiabilidade e capacidade contínua de evolução.

Esse ponto é decisivo para entender o próximo ciclo do software corporativo. Muitas empresas já têm sistemas demais, dashboards demais, integrações frágeis demais e processos que dependem de múltiplas camadas desconectadas. Por isso, a compra deixa de ser sobre funcionalidades disponíveis e passa a ser sobre impacto operacional comprovável.

O cliente quer saber se a solução reduz retrabalho, acelera decisões, melhora produtividade, diminui riscos e contribui para ROI em IA. Quanto maior a complexidade do ambiente, maior tende a ser o valor de quem consegue conectar tecnologia, processo e operação com responsabilidade sobre o resultado.

O risco de criar novos legados com aparência moderna

O avanço da IA também traz uma armadilha: confundir velocidade inicial com maturidade tecnológica.

Uma aplicação criada rapidamente pode resolver um problema imediato, mas isso não garante sustentabilidade. Sem arquitetura adequada, documentação, governança de IA, padrões de integração e visão de evolução, a empresa pode criar um novo legado tecnológico: recente, fragmentado e difícil de manter.

Essa não é uma preocupação teórica. Grandes empresas já passaram décadas modernizando sistemas críticos, como bancos com mainframes e ambientes transacionais complexos. A lição permanece atual: tecnologia que entra no centro da operação precisa ser tratada com responsabilidade técnica.

A IA acelera a construção inicial, mas não elimina o custo de manter, evoluir e integrar software em ambientes críticos. Em alguns casos, ela pode até ampliar o problema. Quando diferentes áreas começam a criar soluções próprias sem coordenação, a organização corre o risco de multiplicar ferramentas desconectadas, automações frágeis e dependências difíceis de mapear.

Construir ficou mais fácil, mas operar continua difícil. Manter segurança, qualidade, integração com sistemas existentes e clareza sobre responsabilidades exige método. Sem isso, a empresa pode trocar um legado antigo por um legado novo, mais rápido de criar, mas igualmente complexo de sustentar.

O critério de valor está mudando

O movimento observado em 2026 talvez seja menos sobre queda de valuation e mais sobre mudança no critério de valor. Em um mercado onde acesso à tecnologia ficou mais amplo, o diferencial sustentável tende a migrar para quem consegue transformar tecnologia em performance de negócio.

Para empresas SaaS, isso significa que crescimento sozinho pode não ser suficiente. O mercado quer entender se a receita é defensável, se o produto continua necessário, se o modelo de cobrança faz sentido em um ambiente com agentes de IA e se a empresa consegue entregar impacto mensurável para seus clientes.

Para compradores corporativos, a mudança também é relevante. A abundância de ferramentas cria mais opções, mas aumenta o risco de fragmentação. Escolher tecnologia passa a exigir uma pergunta mais rigorosa: essa solução melhora a operação ou apenas adiciona mais uma camada ao sistema?

É nesse ponto que o mercado de software entra em uma nova fase. A IA não elimina o valor do SaaS, mas força uma separação mais clara entre produtos convenientes e soluções realmente estratégicas. Algumas empresas de software continuarão se fortalecendo porque têm distribuição, dados, integração e profundidade operacional. Outras terão mais dificuldade para justificar valuations altos se dependerem de licenças por usuário, módulos adicionais ou funcionalidades fáceis de replicar.

No fim, a tecnologia continua avançando, mas o critério de valor ficou mais exigente. A vantagem não está apenas em criar mais rápido. Está em construir melhor, integrar com responsabilidade e transformar software em impacto real para o negócio.